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Vox Mundi School of Sound and Voice
No meu primeiro contato com Saregama
e Silvia Nakkach, senti que a música seria muito
mais fácil a partir dali. Isso porque, no meu entender,
Saregama me pareceu a solução para a notação
musical , sem as notas fixas, sem os acidentes e muito
mais fácil de escrever e de compreender.
Isso foi há mais ou menos 15 anos e durante esse
tempo fui participando de novos workshops e treinamentos
tanto com Silvia como com Alba Lírio, e passei
a me interessar profundamente pelas ragas, que são
os arranjos melódicos feitos a partir das escalas
em Saregama. É um estudo muito mais complexo e
exige dedicação e prática constante.
O aprendizado de música ocidental
não é um pré-requisito para o estudo
das ragas, mas ele dá um entendimento maior quanto
à formação delas á partir
das escalas que são semelhantes aos modos gregos.
A meditação vocal é o início
do caminho para o estudo das ragas, porque já nos
leva a um estado menos racional e portanto, mais aberto
à experiência da raga como meta de estudo.
Para essa meditação podem ser usadas as
sílabas raízes (seed silable) que tem o
poder de desencadear vibrações e frequências.
Elas vem de várias culturas, como por exemplo :
ho, hei – do indígena; hum, ma – do
tibetano; aym, srim – do hindu.
Com essas sílabas sagradas podemos trabalhar as
ressonâncias, pois a ressonância influi diretamente
no sistema nervoso. Isso já foi comprovado em estudos
científicos e as linhas de “sound healing”
vão nessa direção, tanto as que trabalham
com a voz ou as que utilizam objetos sonoros, como por
exemplo os “tunning forks”. Nas várias
maneiras de se usar a ressonância, sempre é
levado em conta que a importância está na
apropriação do som por quem ouve, e quando
é vocal, é a própria internalização
do som, da força contida no som e trazida de fora
para dentro.
Daí vem os bons resultados que essa prática
tem obtido tanto na musicalidade, quanto na cura de dores
e más sensações.
O Dhrupad, sistema mais clássico e mais profundo
de abordagem das sonoridades, é feito como meditação
vocal, precisando de um grau de entrega e concentração
bem maior. Também são usados fonemas (Sa,
Ah, Ra, Re, Ri, Na, Ne, Noum, Toum) e o mais importante
é como chegar a essas notas, como abordá-las
muito vagarosamente, concentrando a atenção
na vibração das frequências entre
as notas, que são os microtons.
A “escuta” se transforma
em meditação, numa verdadeira yoga da voz,
onde o “eu” é diluído. A escuta
profunda ao mesmo tempo em que nos torna UM, amplia de
tal modo os parâmetros de alcance sonoro que nos
torna o TODO. O som nos penetra e envolve.
Em todos os momentos desse estudo, o ouvido é talvez
o orgão mais importante no processo em que através
da escuta conseguiremos a afinação correta.
O complemento a essa afinação virá
a partir do bordão que representa a “casa”,
a base e o alicerce da afinação.
Essa afinação é vista como resultado
da integração de mente e corpo, sem divisões
de pensamentos e julgamentos – boa voz, voz ruim,
desafinada, afinada, clara, abafada – nada disso
é importante quando soamos de maneira integrada.
E somente dessa forma é que conseguimos uma forte
ligação de intimidade entre o que ouvimos
e o que entoamos.
É através dessa intimidade
e entrega total ao mundo do som, que chegaremos à
“rasa”, o verdadeiro sentimento, a essência,
o que vem depois de cantar.
É o momento do silêncio interno, é
o “depois do som”. É sutil e ao mesmo
tempo é encarnado no sentido de estar na carne,
nas entranhas e no mais profundo do ser cantante ou do
ouvinte.
É o que arrepia a pele, o que emociona e o que
eleva ao mais alto nível estético.
É o momento de união total no mesmo sentimento
estético transformado em sonoridade, em som pleno
e divino. Apenas um momento. Mas de tal forma, tão
intenso, que permanece.
A rasa é para sentir, não adianta muito
descrever, mas quando há a intenção
na expressão artística, certamente haverá
“rasa”.
Todos os exercícios com Saregama propiciam uma
maior afinação e uma apuração
da escuta. As sequências e os saltos necessitam
de atenção refinada e devem ser feitos com
auxílio do bordão (pedal) para que a afinação
esteja assegurada e sempre se retorne à “casa”
– ao Sa. Esse tipo de trabalho dá uma autonomia
ao praticante quanto às escalas que chegam a ficar
fáceis de realizar com todas as subidas e descidas
e preparando a voz para o canto propriamente dito, se
for esse o interesse da pessoa – cantar!
Paralelamente ao que venho desenvolvendo
dentro do sistema Vox Mundi, através de estudo
individual e de aulas em grupo, dou continuidade a um
estudo de repertório. Nele, venho há muitos
anos, colecionando canções populares e folclóricas
de vários países, religiosas de várias
tradições e também canções
eruditas, tanto para Coral como para solo.
Nessa coleção existem músicas que
foram feitas em padrões modais e se encaixam perfeitamente
à prática do “Canto Essencial”,
que é como denomino esse tipo de canto.
Outras são tonais, mas com tal simplicidade, que
se tornam ricas em beleza e harmonia.
Algumas trazem uma energia de vibração e
expansão e outras trazem energia meditativa e de
interiorização.
Há canções que são extremamente
envolventes e apaixonantes; outras são singelas
e graciosas, cativam pela docilidade.
Considero de grande importância as seguintes afirmações:
- devemos praticar o canto diminuindo a expectativa para
não deixar o “eu” como o mais importante
e sim a “essência”, a manifestação
através da própria voz.
-o repertório deve ser usado de
modo a continuar esse estado de não-ego tão
prazerozo, já com a voz livre e a mente aberta
e mais receptiva.
-a garganta tem que ser “aberta”
com a prática e não pode ser a idéia
inicial, fixa, senão ocorre o contrário
– ela trava e se fecha.
Além desses pontos, creio que
para uma boa formação de repertório,
tem de ser levada em consideração a facilidade
do praticante, a sua tessitura mais confortável
e o seu gosto musical.
Podemos ainda relevar o objetivo da música para
quem canta ou quer cantar, se é o puro prazer e
elevação da mente ou é a cura e o
aspecto terapêutico em primeiro lugar.
A partir daí poderá ser
construido o repertório com atenção
e cuidado, recolhendo pequenas jóias dentro do
vasto campo das canções : música
tradicional, música popular, música folclórica,
música erudita. As que são mais melódicas,
as que são mais rítmicas.
São nomes, são formas diferentes e são
estilos que estão à nossa disposição
para fazer uso, no sentido mais elevado a que essa arte
se propóe – curar e/ou elevar o espírito;
trazer beleza para a vida comum; derrubar barreiras de
raça, apreciação e idade.
Rosa Amélia Figueiredo
Agosto, 2009.
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