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CANTAR PODE SER ESSENCIAL
O QUE NOS INSPIRA, LIBERA-NOS, ALEGRA-NOS E NOS DÁ
VIDA
Por Alba Lirio
Depois de vivida a saga de cada dia
e diante de tantos mistérios, só resta ao
homem cantar e dar voz às emoções
que lhe vêm da alma. Pois foi cantando para implorar,
lamentar, agradecer ou celebrar que por muitos séculos
caminhou a humanidade e assim parece que continuará
caminhando. Mas no ponto em que está, talvez seja
necessário promover um reencontro com a sua alma.
Nada melhor do que cantar para isso!
Uma pouco de vã filosofia somente para lembrar
ao leitor que cantar está na essência do
homem, tanto quanto dançar e amar. E devemos cantar,
se quisermos ter saúde, uma mente arejada, experimentar
o amor e alguma alegria. Estamos, porém, tão
impregnados de idéias malucas sobre o que é
cantar, sobre estilos, gêneros, timbres, afinações,
etc, etc., sejamos cantores ou não, que chegamos
a aprisionar, inibir, ou até mesmo a banir do nosso
sistema, uma função que nos é tão
natural e ao mesmo tempo exclusiva a poucos eleitos dentre
os seres da criação: a de cantar, pelo simples
prazer de cantar! Assim como o fazem os pássaros,
as baleias, as crianças, os loucos e grandes cantores
que emocionam platéias às vezes nem tão
grandes, mas igualmente sensíveis.
Buscar a fonte de inspiração pode ser um
bom começo para quem ouviu o canto da sereia e
quer seguir cantando também.
Alguns instantes de silêncio e escuta atenta serão
importantes na preparação para essa longa
e maravilhosa viagem musical através do canto;
costumam trazer “dicas sonoras”, provenientes
dos ruídos nossos de cada dia, por exemplo, uma
sirene, um apito, um miado, um latido, etc. Os mais sortudos
chegam a perceber o som das folhas secas varridas pelo
vento, ou o timbre aveludado de um violoncelo ao longe.
Às vezes é o ritmo que nos arrebata: sons
repetidos entre determinados espaços de tempo,
capazes de dar um sentido auditivo até ao incômodo
bate-estaca. No profundo silêncio, podemos com atenção
ouvir o som do coração e da corrente sanguínea
dentro dessa excepcional caixa de ressonância, seus
condutos e seus mistérios, que somos todos nós.
Romper o silêncio após alguns instantes é
um impulso natural: soar é preciso, para não
implodir. Esta fonte tão primordial de inspiração
que é a nossa própria existência orgânica
nos dá o tom, se confiarmos em sua força.
Soaremos graves e fortes, mesmo quando liberamos o cansaço,
a dor, a raiva ou a garra. E estaremos irmanados com a
terra e seus significados, fonte de inspiração
para os povos indígenas de todos os cantos do mundo.
Ou podemos soar tão agudos quando as torres dos
mosteiros medievais, de onde emanavam vozes como a da
abadessa Hildegard von Bigen.
A inspiração que
vem do corpo
Num mundo cada vez mais cheio de opções,
o ideal é deixar o corpo falar. Para o aspirante
ao prazer do canto, vale pedir auxílio aos ombros
e aos quadris. Eles costumam ajudar a voz a sair da terra
e a subir até a fonte da sensualidade e das emoções,
que reside pouco abaixo do umbigo. Dali costumam brotar
invocações, chamadas, gritos e sussurros,
envoltos em vogais mais abertas ou mais fechadas, ou contidos
em fonemas ancestrais carregados de força e significados
ocultos que, se bem escutados e repetidos, ganham forma
de música e são encontrados na raiz dos
cânticos sagrados de diferentes culturas, nos mantras
ou nos pontos de candomblé. E quem diria que estamos
apenas entrando no mundo da musicalidade. Tão mais
naturalmente quanto mais nos permitirmos abrir para o
potencial que nos acompanha desde sempre. A essas alturas
já percebemos quais partes nossas andavam caladas
e, que dirá, esquecidas pelo que entendemos como
a arte do canto. E, então, nos perguntamos: como
pudemos viver sem essa experiência essencial por
tanto tempo? Vamos descobrir que há povos, tradições,
culturas, grupos, pelo mundo afora que preservam seus
cânticos até hoje, alguns dos quais já
identificados, pesquisados, gravados e difundidos para
que se tornem fontes de inspiração para
outros. É tão rica essa dimensão
que poderíamos passar uma vida inteira, ou várias,
só dedicados a pesquisar as sonoridades dos índios,
dos tibetanos e indianos, dos africanos e outros tantos.
Aqui vale lembrar que antes da produção
musical desses povos, há a natureza, eterna fonte
de inspiração dos inocentes, dos homens
de fé, dos poetas e dos artistas, e de quem quer
que de alguma forma vislumbre a inter-relação,
a sinergia e a união de tudo o que é manifesto.
Só para as águas do mar, Caymmi dedicou
metade da sua musicografia.
Outras fontes, novas possibilidades
Mais livres, leves e alegres continuamos
a viagem lembrando então da nossa história
musical. O que ouvimos quando pequenos?
Os sentimentos contidos nas singelas melodias das canções
de ninar ou das cantigas de roda das meninas, nos cantos
de “guerra” das brincadeiras de meninos são
marcantes o bastante para nos acompanhar vida afora e
passíveis de serem acessados a qualquer momento.
Basta parar e lembrar. Não faltam também
registros desse repertório para nos avivar a memória.
Pensar que talvez nunca cheguemos a cantar como nossos
ídolos – que normalmente são da estatura
de uma Elis Regina, uma Ella Fitzgerald, Caetano, Sinatra,
ou mesmo Callas e Pavarotti – não deve excluir
o fato de que esses predestinados à fama podem
nos inspirar a soltar a voz, incorporar o personagem e
recriar a canção à nossa moda.
Com um pouco mais de ousadia e dando asas à imaginação,
busque as outras artes. Ouça que música
lhe traz a pintura, a poesia, a dança ou a fotografia.
Improvise, crie, brinque! Há platéias e
mais platéias em todo o mundo pagando para satisfazer-se
com a grande satisfação dos artistas.
Mais leves ainda, confiantes e com o entusiasmo da criança
diante do presente novo, chegamos ao portal da musicalidade,
prontos para atravessá-lo com os recursos que escolhemos
ao longo da viagem preparatória. Já do outro
lado (o da música, naturalmente), percebemos que
tudo está contido neste rico universo, onde somos
livres para transitar, onde encontramos as vozes da voz
e nos encanto com elas. E onde também, teremos
o privilégio de reencontrar a nossa alma. Pelo
menos a nossa alma de poetas.
Se desejar seguir viagem pelo mundo da música vocal
não faltarão métodos, escolas, espaços,
parceiros e instrumentos. Algum deles oferecerá
aquilo que estávamos buscando. Portanto, parafraseando
o sábio ditado, segundo o qual quando o discípulo
está pronto o mestre aparece, quando o cantor está
pronto, a música também aparece.
Alba Lirio é cantora, professora e coordenadora
no Brasil da Vox Mundi School of the Voice, de São
Francisco, Ca.
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